O Parasita Marxista: Parte I — O Câncer Comunista do Capital Aberto

O Parasita Marxista: Parte I — O Câncer Comunista do Capital Aberto

O capitalismo clássico parte de uma regra simples e honesta: quem assume o risco decide, quem decide responde e quem erra paga o preço. Durante décadas, essa lógica sustentou inovação, crescimento e concorrência real. O problema começa quando a propriedade deixa de significar controle e o mercado deixa de significar liberdade. O capital aberto moderno não aperfeiçoou o capitalismo, ele o deformou. Transformou empresas privadas em estruturas politicamente condicionadas, incapazes de agir com autonomia e responsabilidade.

O impasse envolvendo David Zaslav, a Warner Bros. Discovery, a Netflix e a família Ellison não é um episódio isolado do setor de entretenimento. Ele é um sintoma claro de um sistema que se diz capitalista, mas funciona como um arranjo político-financeiro disfarçado de mercado.

Para entender por que uma empresa do tamanho da Warner simplesmente não consegue decidir o próprio destino, é preciso olhar para a história recente. Até meados do século XX, empresas existiam para produzir bens, serviços e cultura. A bolsa existia para financiar essa produção. O valor das ações era consequência do desempenho real. Esse equilíbrio começa a ruir quando, em 1971, o mundo abandona qualquer lastro material da moeda. A partir daí, valor deixa de representar produção e passa a representar expectativa, narrativa e alinhamento político.

Nasce o capitalismo financeiro moderno.
E com ele, o capital aberto deixa de ser ferramenta e passa a ser instrumento de controle indireto.

Empresas abertas passam a responder menos ao consumidor e mais a acionistas pulverizados, fundos gigantescos, agências reguladoras e governos. O Estado não precisa mais estatizar empresas, ele passa a condicioná-las por meio de regulações, incentivos, riscos jurídicos e chantagem institucional. O livre mercado vai sendo substituído por um mercado tutelado, onde toda grande decisão precisa atravessar filtros políticos invisíveis.

É exatamente nesse ambiente que a Warner está presa hoje.

Zaslav tenta conduzir a venda da empresa, anuncia o comprador, mas ainda patina em um suposto acordo prévio. O comprador pretendido sempre foi a Netflix, sob a liderança de Ted Sarandos. O motivo é simples e nada sofisticado: Zaslav não gosta de Donald Trump. Não há cálculo estratégico elevado nem tese cultural profunda, há antipatia política. E isso, por si só, não deveria importar absolutamente nada.

O que importa é a consequência.

Ele não consegue vender a empresa para quem quer.

No modelo de capital aberto, a decisão final não pertence ao gestor nem ao controlador nominal. Ela é capturada pela vantagem majoritária de acionistas abstratos, por ofertas hostis concorrentes e pelo peso do lobby regulatório. O comando executivo perde autonomia, a empresa entra em paralisia estratégica e o ativo cultural fica suspenso em um limbo permanente. Quando o dono não manda, a empresa já não é privada, ela é apenas formalmente privada.

Esse mesmo modelo ajuda a explicar a degradação cultural de Hollywood, mas não da forma simplista que muitos repetem. Durante anos, a indústria foi dominada por uma agenda ideológica conhecida como woke, não porque o mercado pediu isso, mas porque o mercado deixou de existir de verdade. A fragmentação da propriedade, somada à interferência estatal indireta e ao lobby político-cultural, criou um ambiente onde decisões passaram a ser guiadas por medo regulatório, ameaças de cancelamento institucional e alinhamento com burocracias culturais.

O Estado não precisou censurar diretamente. Ele terceirizou a censura.

Quando ninguém manda de verdade, quem grita mais alto e quem controla regras, incentivos e punições, assume o comando. O resultado foi uma indústria cultural alienada do público, protegida por barreiras institucionais e cada vez mais hostil ao consumidor real.

É aqui que o contraste com empresas verdadeiramente privadas se torna impossível de ignorar.

A Valve é um exemplo raro e didático de como o capitalismo funciona quando ainda é capitalismo. Empresa de capital fechado, controle real dos fundadores e decisões tomadas com base em visão de longo prazo, não em pressão trimestral. A Valve criou a Steam, que revolucionou a distribuição de jogos no PC, ampliou o mercado, reduziu pirataria e deu ferramentas para pequenos desenvolvedores competirem em pé de igualdade com gigantes.

Em vez de sugar o ecossistema, a Valve investiu nele. Criou sistemas de avaliação pelos próprios usuários, fomentou mods, comunidades, campeonatos e economias internas que beneficiaram jogadores e criadores. Quando decidiu entrar em hardware, não fez para travar o mercado, mas para ampliá-lo. O Steam Deck não fechou o usuário em um jardim murado, ele expandiu o acesso ao PC gaming, estimulou concorrência e forçou o setor inteiro a evoluir.

Nada disso veio de lobby estatal.
Nada disso veio de pressão regulatória.
Nada disso veio de acionistas abstratos exigindo retorno imediato.

Veio de risco, decisão e responsabilidade.

Isso é capitalismo real. Livre iniciativa, investimento direto, fortalecimento de comunidades e melhora contínua da qualidade entregue ao consumidor. Sem interferência política disfarçada, sem censura indireta, sem engenharia social embutida em “governança”.

O que vemos hoje no entretenimento e cada vez mais na tecnologia, é outra coisa. É um sistema que se apresenta como mercado, mas funciona como um aparelho político-financeiro, onde a propriedade é nominal, o controle é coletivo e o Estado atua sem jamais assumir o nome.

O capital aberto, nesse formato moderno, não é uma evolução do capitalismo.
É a sua negação prática.

E talvez a pergunta final seja a mais incômoda de todas: o mundo passou séculos inovando, criando riqueza, cultura e tecnologia sem esse modelo de capital aberto moderno. Se ele hoje paralisa decisões, destrói autonomia, captura empresas e degrada o livre mercado, por quanto tempo ainda vamos fingir que ele é indispensável e não exatamente o contrário?

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Thallisson Silva
Engenheiro de Software, Especialista em Automações e Jornalista

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