O mundo já lutou contra o comunismo em outras épocas. Muitas vidas foram perdidas nas mãos desse insanos.
Noventa anos atrás, milhões de ucranianos morreram em uma grande fome durante o regime soviético de Joseph Stalin.
E até hoje, o Holodomor, como o evento ficou conhecido, continua a dividir opiniões tanto de historiadores quanto do público.
Há os que o rotulam como genocídio e traçam paralelos com o Holocausto — o assassinato em massa de milhões de judeus, bem como homossexuais, ciganos, Testemunhas de Jeová e outras minorias, durante a 2ª Guerra Mundial, a partir de um programa de extermínio sistemático implementado pelo partido nazista de Adolf Hitler.
Outros rejeitam tal definição e consideram a comparação inadequada, apesar de reconhecerem a dimensão humana da tragédia.
Afinal, a grande fome foi uma política de extermínio deliberadamente planejada por Stalin ou consequência da industrialização soviética?
Em meio a visões distintas, as redes sociais acabaram por acirrar ainda mais essa discussão, tornando-se plataforma de vozes exaltadas contra e favor do comunismo.
Aldeias inteiras foram dizimadas e, em algumas regiões, a taxa de mortalidade chegou a 30%. O campo ucraniano, lar da “terra negra”, algumas das terras mais férteis do mundo, foi reduzido a um deserto silencioso.
Cidades e estradas ficaram repletas de cadáveres daqueles que deixaram suas aldeias em busca de comida, mas morreram ao longo da jornada. Houve relatos generalizados de canibalismo.
Em 2013, a ucraniana Nina Karpenko, então como 87 anos, contou, em entrevista à BBC, como conseguiu sobreviver.
“Um pouco de fubá barato, palha de trigo, folhas secas de urtiga e outras ervas daninhas” — essa era a essência da vida durante o terrível inverno e o início da primavera de 1932-33 na Ucrânia.
Quando as aulas recomeçaram no outono seguinte, dois terços das carteiras estavam vazias, segundo Karpenko. Seus colegas de classe haviam morrido.
Joseph Stalin é acusado de deliberadamente deixar ucranianos morrer de fome
Mas a dor do Holodomor não vem apenas do número de mortos. Muitas pessoas acreditam que suas causas foram intencionais e decorrentes da ação humana.
E, segundo elas, o homem por trás disso tinha nome e sobrenome: o então líder soviético, Joseph Stalin.
Em outras palavras: um genocídio.
Elas alegam que Stalin queria submeter o campesinato ucraniano rebelde à fome e forçá-lo a integrar suas propriedades em fazendas de exploração coletiva.
A coletivização daria ao Estado soviético controle direto sobre os ricos recursos agrícolas da Ucrânia e lhe permitiria controlar o fornecimento de grãos para exportação. As exportações de grãos seriam, então, usadas para financiar a transformação da URSS em uma potência industrial.
A maioria dos ucranianos rurais, que eram agricultores independentes de pequena escala ou de subsistência, resistiu à coletivização. Eles foram forçados a entregar suas terras, gado e ferramentas agrícolas, e trabalhar em fazendas coletivas do governo (“kolhosps”).
Houve milhares de protestos, que foram reprimidos pela polícia secreta soviética (GPU) e o Exército Vermelho. Dezenas de milhares de agricultores foram presos por participar de atividades antissoviéticas, fuzilados ou deportados para campos de trabalho forçado.
Além da repressão em massa, o Kremlin passou a requisitar mais grãos do que os agricultores podiam fornecer. Quando resistiram, brigadas de ativistas do Partido Comunista varreram as aldeias e levaram tudo o que era comestível.
“As brigadas levaram todo o trigo, cevada — tudo — então não sobrou nada”, disse Karpenko. “Até mesmo feijões que as pessoas tinham reservado para uma eventualidade”.
“As pessoas não tinham nada a fazer a não ser morrer.”
Ao passo que a fome aumentava, as autoridades soviéticas tomaram medidas extras, como fechar as fronteiras da Ucrânia, e os camponeses se viram impedidos de viajar para o exterior onde poderiam obter comida.
Isso significou uma sentença de morte, dizem especialistas.
“O governo fez todo o possível para impedir que os camponeses entrassem em outras regiões e buscassem pão”, afirmou à BBC Oleksandra Monetova, do Museu Memorial Holodomor de Kiev.
“As intenções das autoridades eram claras. Para mim é um genocídio. Não tenho dúvidas.”
Mas para outros, a questão ainda está em aberto.
A Rússia, em particular, se opõe ao rótulo de genocídio, classificando-o de “interpretação nacionalista” da fome.
Autoridades do Kremlin insistem que, embora o Holodomor tenha sido uma tragédia, não foi intencional, e outras regiões da União Soviética também sofreram na época — e isso, de fato, aconteceu.
Kiev e Moscou entraram em conflito sobre a questão no passado.
Atualmente, além da Ucrânia, pelo menos 15 países — entre os quais Portugal e Canadá, e Argentina, Colômbia, Paraguai, Peru, Equador e México na América Latina — consideram o Holodomor um genocídio.
Em 2018, o Senado dos Estados Unidos adotou uma resolução que definiu o Holodomor como genocídio.